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domingo, 2 de junho de 2013

Tem gente que não ouve Outside The Wall

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Sabina

Hoje a noite pertence a Leminski
e a certeza de que um dia tudo será poesia
escondida em palavras meticulosas
e frases em frações de segundo.
Um segundo é o que preciso.
Maldita leveza;
maldita leveza insustentável
e maldita sustentabilidade.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Assinado: miss nothing

 Eu sou você; não pode ou quer me afastar. Sempre estive em ti, baby, dizem que não se pode correr do destino, e as estrelas da sua estrada são o sinalizador para a minha redoma - a nossa redoma, onde somos uma.
 Não me diga que não gosta dessa sensação de me ter em você.
 Não me diga que não gosta do escuro.
 Do desconhecido.
 De ser um desastre belamente depressivo.
 E você, que sempre me chamou de alter-ego. Alter-ego é desculpa para personalidade que tem medo de assumir. Sempre foi o seu medo, certo? Todos os dias, todos os anos, você foi a cara do medo. Respire agora, querida. Como é bom estourar o tourniquet, gritar para e aos céus, estar mais alta que as montanhas e mais baixo do que os vales. Eu te fiz assim. Eu te dei a coragem de ser quem sempre foi e temeu ser, ainda que o ser seja nulo. Você não é nada. O mundo é nada. E não existe nada mais maravilhoso do que o nada.
 Bem-vinda, minha criança, ao planeta boom.

misturar mötley crüe com milan kundera com the pretty reckless com crise de identidade com sempre-fui-miss-nothing

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Carta para ninguém

 Fiz besteira.
 Era o que eu costumava dizer quando isso acontecia. Eu escolhia alguém de confiança e dizia “fiz besteira”. Mas isso foi uma época diferente. Naqueles dias eu procurava conforto e ajuda, enquanto hoje tenho a consciência de que foi só dessa vez. Uma vez pelo ano inteiro, esse dois mil e doze que está finalmente acabando.
 Eu me lembro bem do começo do ano, tão bons foram aqueles dias. Diziam-me que eu parecia melhor, que no ano anterior eu andava abatida e tudo era verdade. Naqueles primeiros meses fui tomada por uma leveza, uma calmaria e até esperança que nunca conheci antes. Mas sempre fui feita de pedaços e não demorou muito para que eu desmoronasse. Mesmo assim, algo estava mudando.
 Comecei a querer provar que era autossuficiente e este é um hábito que se mantém até hoje. Preferi conviver esses duzentos e quarenta e cinco dias com os fragmentos do meu corpo e alma do que deixar alguém me consertar. Também abandonei os péssimos hábitos dos anos anteriores e passei a me apoiar somente em discos e livros. E essa suposta autossuficiência me transformou em quem sou hoje, nove meses depois de me dizerem que eu “parecia melhor”.
 Gosto e desgosto dessa nova versão do meu eu. O reencontro (e em alguns casos encontro) com a literatura e boa música me permitiu abrir os olhos para inúmeras coisas, mas choque de realidade pode doer. Porém, essa foi a minha escolha, a minha preferência de entender e sofrer a realidade do que continuar a viver naquele mundinho estúpido onde eu precisava me encaixar. Acredite, apesar do teor cansado e melancólico deste relato, não me encaixar foi a melhor escolha.
 E assim o ano se desenrolou através de vales e montanhas. Agora que paro para pensar, o ano foi curto, mas as noites foram longas. Nunca fui muito próxima do sono, mas este ano ele pareceu terminar definitivamente o relacionamento comigo. Eu deitava (ou deito, pois estou na mesma situação neste exato momento) na cama e esperava por horas intermináveis pelo segundo de misericórdia onde eu finalmente cairia no sono. As noites sempre foram, para mim, o velho paradoxo de contentamento descontente. São o meu momento de inspiração, de criatividade, de vontade de escrever, e de pensar. Pensar é perigoso.
 Sem mais delongas, dois mil e doze foi um ano dispensavelmente indispensável (gostei dessa coisa de paradoxos hoje, hein?). Ouvi coisas que gostaria de poder apagar, fiz coisas que me arrependo mais do que em anos anteriores. Aprendi muito. Com livros, músicas e pessoas, apesar de eu não ser uma pessoa tão agradável quanto costumava ser. E todos esses sentimentos, lembranças e palavras que eu gostaria de apagar vieram à tona hoje e eu precisei tirar isso de mim. Da única maneira que eu conhecia.
 Não me arrependo. Como disse no começo, foi só uma vez pelo ano. Foi só pelo sentimento de leveza do “afterwards”.
                E eu aprendi que essa leveza é insustentável. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Crônica da noite

 Era noite de ligar a luz vermelha e cuspir seus suspiros e "ah, monsieur". Cortesã que era, bem sabia ser apenas um eufemismo para puta. Sua era a noite e deles era o prazer; há quem diga que o corpo era dela, mas todos sabemos como ela o entregava de bom grado diante da quantia certa de dinheiro - e este era o verdadeiro dono do seu ser. Sim, eram os homens que a possuíam, mas o dinheiro era a passagem. Era escrava e amante do dinheiro.
 E nesse vai e vem de clientes endinheirados surge o nosso herói. Garoto conhece garota. Ele detinha as notas e ela detinha o orgasmo; dançaram em frente ao espelho, disseram obscenidades e entrelaçaram-se entre os lençóis. Ele notou o chapéu coco ao lado do espelho. Chegava a ser cômico, imaginá-lo na cabeça da cortesã que exalava feminilidade por debaixo do seu corpo. Mas era também sensual à sua própria maneira. O chapéu coco era a vericidade de sua idealização. Através do chapéu coco sabia que a cortesã não era ordinária - não por ser uma cortesã, mas sim por imaginá-la caminhando com o chapéu coco na cabeça pelas ruas.
 Tornou-se cliente regular. Nenhum dos dois dava a importância devida a necessidade de que se pagasse pelo amor (se é que era isso que o fazia entregar-se à noite). Esqueceu-se de como podia ser perigoso apaixonar-se por uma cortesã. Ela, que sempre fora de todos e nunca tivera alguém seu, deliciava-se com as juras do herói enquanto alisava seus braços sensualmente. Quando a manhã surgia, o prestígio do pequeno monte verde era ainda mais prazeroso. Quem sabe poderia comprar um novo chapéu e livrar-se da maldita velharia que detinha! Odiava o chapéu coco. Era a metáfora de todos os seus dilemas, todos os seus feitos e jeitos malditos. Precisava se livrar do chapéu coco. 
 E nesse paradoxo as noites continuavam e a cada pôr-do-sol ele batia à sua porta e entregava-se ao êxtase momentâneo de sua companhia. Em seu clímax, olhava para o chapéu coco e colocava-o mentalmente na cabeça da cortesã. Sussurrava palavras de amor e acreditava ganhá-lo em retorno. Acreditava que um dia eles fugiriam juntos, comprariam uma casa no campo e um cachorro que os acompanhasse com croissants na boca.
 Qual foi a sua surpresa quando bateu à porta e não teve resposta. Girou a maçaneta, encontrando o quarto vazio e a cama perfeitamente ajeitada. A aba do chapéu coco aparecia discretamente por detrás do espelho. Não havia sinal da cortesã - havia apenas a lembrança impressa no tecido do chapéu. Observou-o por alguns segundos e, afinal, atirou-o furiosamente contra a parede. Maldito chapéu coco! Maldita cortesã! ordinária! prostituta! usurpadora! mercenária! Ordinária.
 Roxanne comprou um chapéu de plumas. O vestido vermelho contrastava-se com as luzes da cidade de Paris, e sorria como um crocodilo aos olhares maliciosos que pousavam sobre seu corpo. Andava de cabeça erguida, parcialmente alheia aos pescoços que viravam-se ao seu caminhar. Deixara a pequena cidade e o herói para trás, passou a gastar seus dias trabalhando como garçonete de um bistrô e suas noites como sonhadora ávida que nunca mostrara ser. Mudou o nome. Comprou um novo chapéu.