quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Drink to me; drink to my healt; you know I can't drink anymore
Talvez não do mundo, mas acima de todos os arranha-céus que há muito decoram a selva de pedra que apelidamos de São Paulo. E, aqui em cima, tudo parece como realmente é: desprezível, pequeno, destrutível, de papel.
Percebo que não estou sozinha. Um homem de cabelos encaracolados e olhos pretos (que mais parecem vazios do que coloridos) me encara, um lápis em uma das mãos e uma espada na outra. De repente, ele solta uma risada histérica e os produtos do cabelo derretem. Reconheço-o como o guitarrista daquela velha banda que me agradava; não lembro seu nome. Ele me oferece os dois objetos - recolho ambos. Seu olhar está fixado em mim; não, espere. Atrás de mim. Viro-me e encaro o meu próprio reflexo num espelho solitário (juro que não estava ali antes). Meu reflexo move-se e eu não.
A mão esquerda quebra o lápis. A mão direita leva lentamente a ponta da espada aos lábios. Abaixo os olhos para o meu corpo real - pelo menos acredito ser real - e minhas mãos permanecem imóveis. Volto para o espelho. A espada agora desliza pela minha garganta e sinto a dor da lâmina, cruel, ríspida e sem misericórdia.
Eu estou sangrando.
E o meu reflexo sorri - cínico -, "aqui está sua garganta de volta. Obrigada pelo empréstimo."
da lista de sonhos sobre os quais eu provavelmente não deveria escrever.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Se for pra morrer, que seja no hoje e agora
Não escrevo isso porque aprendi, talvez porque esteja perto. Nada do que escrevi nos últimos meses foi publicado por serem de porte tão íntimo que estão melhores reservados para a página do caderno. Mas a felicidade deve ser compartilhada. É contagiante (acredite).
A vida está intensa, repleta de passeios no lado selvagem da cidade e descobertas que talvez devessem permanecer um mistério. Não que eu me arrependa. Assumir uma postura de não-arrependimento também ajuda na busca desse tal revólver de felicidade.
O que eu quero dizer é que a vida tem sido intensa e de uma calmaria confortável. Você não precisa de detalhes. Só precisa saber que geralmente vale a pena. Tudo.
come and take a walk on the wild side
let me kiss you hard in the pouring rain
you like your girls insane
choose your last words
this is the last time
cause you and I, we were born to die
domingo, 30 de junho de 2013
Mona Lisas e Chapeleiros Malucos
Se lembra do chapéu coco, meu amor? Ouvi dizer que o chapeleiro perdeu um parafuso; agora ele quer descobrir a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha. Mal sabe ele que Stephen King é passado. Stephen King, certo?
Mas na verdade quero dizer que encontrei o filho do banqueiro hoje. Também perdeu um parafuso, esse aí. Se afogou no seu mundinho de contas e papéis. Verdes, na maioria das vezes. Ele se esqueceu de olhar para o céu, querido. Agora mal sabe se é dia ou noite. Desde que suas contas estejam certas.
E eu? Tenho esse sorriso que tenta ser de Mona Lisa mas está mais pra crocodilo. Crocodilo quer dizer malícia, quer dizer carícia, quer dizer astúcia e diz mais ignorância. Ignorante por ser Mona Lisa. Eternamente condenada a sorrir enigmamente para estranhos e mentir seu nome quando cai a noite. Em vez de Penny, seria Mona Lisa.
Você sabe qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?
domingo, 14 de abril de 2013
cisne
sem saber que palavras e marretas não são tão diferentes
quis fingir que sabia patinar graciosamente
que controlaria os meus pulmões
que me aqueceria quando o gelo tocasse a pele
e lágrimas e sangue perderam-se na água
assim que o gelo rachou.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Quando Florian tornou-se um palhaço bêbado
sábado, 22 de setembro de 2012
Renasça enquanto há tempo
Encontrava-se no topo do prédio mais alto da cidade, cercada por pessoas que comentavam sobre a paisagem perfeita que a altura lhes proporcionava. Tão perto do céu, tão alto quanto as nuvens, tudo tornara-se frágil. Aproximava-se cada vez mais da borda do prédio, observando os carros que iam e vinham na rua. Subitamente, como que empurrada por um sopro do vento, ela caiu. Não sentia medo algum, aprendera toda sua vida como fingir e, no momento, fingia que estava voando. A queda parecia nunca acabar, como uma metáfora de seu livro preferido. Toda a sua vida correu por seus olhos, todas as pessoas, lugares e erros. Ah, seus erros. De repente, sentia como se todos os seus certos e errados fossem apagados pelo vento batendo em seu corpo. Via a calçada se aproximando, e de repente arrependeu-se. Era tarde demais.
Sentiu uma dor incrível ao atingir o chão de concreto, e não podia fazer nada além de assistir inconscientemente a multidão que formava-se ao seu redor. Queria gritar por socorro, mas não encontrava sua voz. A única coisa registrada foi a voz doce de um homem que ajoelhou-se ao seu lado e sussurrou ao seu ouvido:
- Renasça enquanto há tempo.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Está chovendo de novo; pena que perco um amigo.
Deparou-se com cinco ou seis crianças que corriam em círculos, umas atrás das outras, e soltavam gargalhadas altas e gritos de surpresa quando alguma delas tropeçava. Foi atingida por um sentimento de nostalgia, invadida por memórias dos anos em que a faculdade, os estereótipos, o dinheiro, a amizade, o amor, a responsabilidade e sua própria existência não eram fatores importantes. "Como é fácil", ela pensou, "brincar em cadeiras de balanço, sem se preocupar com a idade que se tem". E como a idade os dezessete anos são um problema! Não são dezesseis e nem dezoito. Como pode uma pessoa agir como dezessete?
- Você age como criança às vezes.
- E qual o mal nisso?
- Não vai dar certo. Eu não sou criança.
- Pois devia.
- ...
- Vou sentir sua falta.
- ...
Uma pequena gota de chuva escorreu de seus olhos. Quase conseguia vê-lo ali na sua frente, embora soubesse que ele estava longe demais para ser visto. Cerrou os olhos numa tentativa inútil de se prender àquela alucinação. As gotas da chuva eram agora pesadas e não havia muito o que se enxergar, e ela correu. Correu para onde ele estivera. E tudo o que encontrou foi o portão de casa.
P.s.: Vou colocar meus textos aos poucos aqui. Acontece que blogspot é mais fácil que o weebly haha